02- Números crescentes, necessidades diversas
Equipe Editorial Bibliomed
Existem mais de 1 bilhão de jovens entre 10 e 19 anos, um
quinto da população mundial, e este número continua a crescer. Praticamente todo este
crescimento ocorre nos países em desenvolvimento, tendo à frente a região africana ao
sul do Saara. Apesar da taxa de fertilidade estar baixando em muitas regiões do mundo em
desenvolvimento, os grandes contingentes nascidos ao final dos anos 70 e início dos 80
estão agora atingindo o início da idade adulta, sendo que alguns já estão procriando.
Mesmo que estas gerações tenham um número menor de filhos que seus pais, o número de
adultos jovens nos países em desenvolvimento aumentará em 20% durante os próximos 15
anos (488) (veja a Tabela 1). Ao mesmo tempo,
alguns países desenvolvidos projetam uma diminuição de sua população de adultos
jovens. Em todo o mundo, o número de adultos jovens deve crescer e atingir 1,2 bilhões
de pessoas no ano 2.010 (488) (veja a Tabela 1).
Uma outra forma de examinar a distribuição dos adultos jovens na população mundial
é por meio da idade mediana, ou seja, a idade que divide a população mundial em duas
metades, uma acima e outra abaixo dessa idade. A mediana mundial é 25, ou seja, metade da
população do mundo tem menos de 25 anos. A idade mediana para o grupo dos países em
desenvolvimento é 23 anos, enquanto que para o grupo dos países desenvolvidos, essa
idade é de 35 anos (497). Alguns países em desenvolvimento apresentam populações
extremamente jovens. Por exemplo, na América Latina, a idade mediana é de 20 anos na
Bolívia, 18,7 em El Salvador e 18,1; na Guatemala. Na África, as idades medianas são
ainda mais baixas: 17,5, na Nigéria e 15,1, em Zâmbia, ou seja, neste último país,
metade da população tem menos do que 15 anos (172). (Veja a Foto 1)0
Definição do Adulto Jovem
Todas as culturas reconhecem e marcam a transição da criança a adulto (535). No
entanto, o conceito dessa transição como uma etapa da vida não existia nos países
desenvolvidos até o final do século 19 e início do século 20 (190, 240). Em muitos
países desenvolvidos esse conceito só foi reconhecido há apenas 20 anos e, em muitas
regiões, a idéia ainda é nova. A Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu a
adolescência como um período no qual:
- o indivíduo se transforma, com o aparecimento de características sexuais secundárias
(puberdade), até atingir a maturidade sexual e reprodutiva;
- ocorre o desenvolvimento de processos mentais adultos e identidade adulta;
- realiza-se a transição de uma situação de total dependência econômica a uma outra,
caracterizada por uma certa independência (544).
Muitas estatísticas se referem ao grupo etário de 10 a 19 anos, ao passo que outras
preferem o grupo de 15 a 24, mas nenhuma dessas faixas tem a intenção de definir um
início e fim incontestáveis, seja social ou biologicamente. A puberdade marca o início
biológico da adolescência, mas as marcas de sua conclusão são muitas e pouco definidas. A única definição universal de um adolescente parece ser a de uma pessoa que
não é mais considerada uma criança mas que dificilmente seria considerada como um
adulto.
Durante a adolescência muitos adultos jovens passam por momentos críticos e
definitivos em sua vida: primeiro casamento, primeiro ato sexual, paternidade. Antes,
esses eventos eram considerados inseparáveis, mas para os jovens atuais a realidade é
outra. A idade da puberdade continua a diminuir e a idade do casamento continua a
aumentar. O tempo que os jovens passam entre a puberdade e o primeiro casamento aumentou
consideravelmente, o que significa que, para muitos, a primeira experiência sexual e a
paternidade ocorrem em diferentes contextos pessoais e sociais.
Menor Idade na Puberdade
Atualmente, os meninos e meninas chegam à puberdade mais cedo do que as gerações
anteriores. Em geral, as meninas entram na puberdade entre os 8 e 13 anos, passando pela
menarca (primeira menstruação) vários anos depois, enquanto que os meninos chegam à
puberdade entre os 9 e 14 anos (436, 529). As razões da menarca precoce nas meninas não
é ainda muito bem entendida. Atribui-se a maior parte dessa mudança às melhores
condições atuais de saúde e nutrição (160, 185, 529). Na América do Norte, a idade
da menarca diminuiu em três a quatro meses para cada década, a partir de 1850; em 1988,
a idade mediana da menarca era 12,5 anos entre as meninas estadunidenses (160, 529). Em
alguns países em desenvolvimento, a idade da menarca parece estar diminuindo ainda mais
rápido. Por exemplo, no Quênia, a idade média de menarca diminuiu de 14,4 anos, ao
final dos anos 70, para 12,9 anos, nos anos 80 (185).
Durante a puberdade, os meninos e meninas passam por algumas das mudanças mais
radicais de suas vidas. Seus corpos crescem mais rápido do que durante qualquer outro
período da vida, com exceção da primeira infância (66, 201, 471, 537). As
características sexuais secundárias se desenvolvem durante um surto de crescimento
impulsionado por hormônios. Essas mudanças físicas dramáticas ocorrem, geralmente,
durante períodos de 5 anos mas podem levar, às vezes, apenas 18 meses ou até seis anos
(35, 66, 201, 281). Um mesmo grupo de indivíduos de 14 anos de idade pode incluir meninos
e meninas que ainda parecem crianças e outros cujos corpos se parecem aos de homens e
mulheres adultos (114).
Da mesma forma que o desenvolvimento biológico, a maturidade emocional e o
desenvolvimento cognitivo variam amplamente entre jovens da mesma idade. Apesar de estarem
começando a desenvolver a capacidade de pensar abstratamente e planejar o futuro, a
maioria dos adultos jovens chegam à maturidade sexual antes de atingir a maturidade
emocional ou social ou a independência econômica. Muitos modelos que abordam a tomada de
decisões tentaram explicar a atividade sexual e o processo de tomada de decisões dos
adultos jovens. No entanto, nenhum desses modelos conseguiu explicar definitivamente como
influenciar o comportamento (258, 290). Os campos da sociologia e da psicologia costumam
ver a sexualidade adolescente de forma convencional, dentro do quadro de desvio do
comportamento (290). Pouco se concentrou, até agora, no desenvolvimento e comportamento
sexual normal e saudável entre os jovens. Existem trabalhos mais recentes que indicam a
necessidade de se levar em consideração o contexto da atividade sexual dos jovens
adultos, bem como as pressões sociais e os custos psicológicos associados com a
abstenção ou a prática do sexo e com a decisão de usar ou não usar anticoncepcionais,
se o jovem for ativo sexualmente (51, 59, 402, 416).
Claro está que, ao entrar na puberdade, aumenta o interesse de meninos e meninas pelo
sexo. Ao mesmo tempo, eles passam por emoções e pressões sociais fortes e até
contraditórias, ao passar da fase de dependência infantil para uma idade adulta mais
independente. A maioria deles não estão preparados para as situações que irão
enfrentar. Mesmo assim, as decisões e as experiências dos jovens durante sua transição
à idade adulta, devido aos riscos de saúde inerentes à atividade sexual, poderão
afetar o resto de suas vidas.
Atividade Sexual entre os Adultos
Jovens
A idade da primeira relação sexual varia consideravelmente entre os vários países e
regiões (veja a tabela 2). A impressão mais
comum é a de que os jovens de hoje se iniciam na prática sexual mais jovens do que as
gerações anteriores, mas, na verdade, as comparações entre mulheres da faixa etária
de 20-24 com as mulheres da faixa de 45-49, feitas à época das Pesquisas Demográficas e
de Saúde (DHS) do final das décadas de 80 e 90, não demonstraram nenhuma tendência
universal. (As medianas indicadas nas tabelas 2
e 3 foram calculadas para todas as mulheres,
inclusive aquelas que não tinham ainda iniciado a atividade sexual. Por isso, as idades
medianas constatadas nos dados das DHS exibidos na Tabela
2 são mais altas que as idades médias calculadas somente para as mulheres
sexualmente ativas, conforme se vê na Tabela 4).
Na verdade, a idade mediana da primeira relação sexual das mulheres aumentou em
muitos países, sobretudo na Ásia e América Latina (veja a Tabela 2). A continuação dos estudos e o
adiamento do casamento poderá explicar alguns dos aumentos na América Latina (450).
Mesmo nos locais onde a primeira relação sexual tende a ocorrer agora em idade mais
avançada do que no passado, ela ocorre cada vez mais antes do casamento; e mesmo nos
locais onde a idade à época da primeira relação sexual está aumentando, a idade à
época do casamento aumenta de forma mais rápida (101, 166).
Atividade sexual pré-marital. Ao concentrar as atenções sobre a atividade
sexual dos adultos jovens, não se percebe, às vezes, que, no mundo desenvolvido, a
maioria dos adultos jovens, especialmente do sexo feminino, não são ativos sexualmente e
que a maior parte da atividade sexual dos jovens ocorre dentro do casamento (450) (veja a Figura 1).
Ainda assim, em muitas partes do mundo, a atividade sexual pré-marital é comum entre
os jovens (veja as Tabelas 3 e 4). Sua prevalência varia de acordo com o sexo e
a classe sócio-econômica. Em todas as sociedades, comparando-se rapazes e moças da
mesma idade, os primeiros declaram ser ativos sexualmente em maior número do que as
moças, sendo que os rapazes começam a ter relações sexuais mais cedo. Por exemplo, nas
Pesquisas de Saúde Reprodutiva de Adultos Jovens realizadas na América Latina, a idade
média da primeira relação sexual variou de 13 a 16 anos para os rapazes e de 16 a 18
anos para as moças (337) (veja a Tabela 4).
Na África, entre estudantes pesquisados no Quênia no final dos anos 80, 48% dos rapazes
na escola primária, e 69% na escola secundária, eram sexualmente ativos, comparados com
17% e 27% das adolescentes e moças das escolas primária e secundária (255). Na Ásia,
que dispõe de um número menor de estudos, os dados de Hong-Kong, Coréia do Sul e
Tailândia demonstram que menos do que 10% das mulheres solteiras com menos de 24 anos já
tiveram relações sexuais (490). Na Tailândia, por outro lado, mais de metade dos
rapazes informam ter tido relações sexuais antes dos 18 anos, geralmente com uma
prostituta (555).
Segundo informações freqüentes de jovens do sexo masculino, eles têm múltiplas
parceiras sexuais e fazem sexo com pessoas que pouco conhecem. Em contraste, as jovens
informam, normalmente, que tiveram sua primeira relação sexual, bem como as
subseqüentes, com um namorado firme ou noivo (49, 185, 255, 337, 553). É possível, no
entanto, que as pesquisas nem sempre reflitam de forma acurada o comportamento dos jovens.
É comum os jovens do sexo masculino exagerarem sua atividade sexual, refletindo uma
cultura que estimula e aprova a experimentação sexual dos rapazes, enquanto que as
moças podem não querer revelar toda a sua atividade sexual, pois a mesma cultura
valoriza as que se mantém virgens antes do casamento. Como declarou uma jovem em um
estudo de Zimbábue: "Quando escrevo um fato sobre minha vida, tenho que enfrentar
essa situação". (45)
A atividade sexual dos jovens solteiros continua a aumentar em muitas regiões. Nos
últimos 15 anos, alguns estudos feitos na África e América Latina constataram um
aumento do percentual de jovens que são ativos sexualmente (15, 156, 283, 336, 337, 349,
350). No entanto, pelo menos um pesquisador já comentou que a atividade sexual informal
se tornou mais comum entre adultos em geral, tanto casados quanto solteiros, bem como
entre os jovens (292).
Aumenta a Idade do Casamento
Os jovens estão se casando mais velhos do que se casaram seus pais e, hoje, é
bastante menor o percentual de mulheres que se casam com menos do que 20 anos (veja a Tabela 5). Por isso, a idade mediana no casamento
vem subindo em quase todas as regiões do mundo.
Nos países desenvolvidos, bem como no Oriente Médio, na Ásia Oriental e em alguns
países da América Latina, as mulheres tendem a se casar no início ou meados da faixa de
20-30 anos. Dois terços ou mais das mulheres jovens nessas regiões casam-se somente
após os 20 anos. Em contraste, na região africana ao sul do Saara, pode chegar a dois
terços o número de mulheres jovens que se casam antes de completar 20 anos. Em muitos
desses países, uma boa proporção de mulheres se casam ainda mais jovens. Em quase todos
os países em desenvolvimento, as mulheres que vivem nas áreas rurais têm maior
probabilidade de se casar antes dos 20 anos do que as que vivem nas cidades (450, 519,
554).
Nas últimas décadas, a idade do casamento subiu mais rapidamente na Ásia, no Oriente
Médio e na África do Norte. As mudanças são menos fortes na África ao sul do Saara,
onde a idade do casamento continua a ser baixa, e na América Latina, onde a idade do
casamento aumentou anteriormente. Apesar disso, mesmo na África Sub-Saara, o percentual
de mulheres que se casam antes dos 20 anos diminuiu em pelo menos 10% em 9 dos 21 países
para os quais existem dados pesquisados (veja a Tabela
5).
Os rapazes e o casamento. A idade em que casam os homens recebe menos atenção
do que a idade das mulheres no casamento; existe pouca informação comparativa
disponível. Apesar das mulheres que permanecem solteiras estarem se tornando comuns, são
os homens solteiros que sempre foram mais comuns em todo o mundo (554), porque em
praticamente qualquer cultura os homens se casam mais tarde do que as mulheres e tendem a
ser vários anos mais velhos que estas. Assim, a idade média dos homens no casamento
varia do início ao final da faixa de 20–30 anos. Tradicionalmente, considera-se que
as jovens já estão preparadas para casar depois do surgimento da menstruação ou
desenvolvimento físico, ao passo que, para os homens, a situação econômica tem maior
peso. Sempre que se espera dos homens que demonstrem primeiro a capacidade de poder
sustentar a esposa e família, eles não são considerados como preparados para casar até
os meados ou fim da faixa de 20-30 anos ou até que tenham terminado sua instrução
escolar ou um programa de treinamento para fins de emprego (440).
Nível de instrução e idade no casamento. Como a educação formal vem se
tornando mais disponível nos países em desenvolvimento, ela se tornou um fator no
adiamento do casamento. As mulheres que completam pelo menos a instrução primária,
tendem a se casar mais tarde (54). Por exemplo, em todo país da África Sub-Saara o
percentual das mulheres de idade entre 20–24 anos que completaram a instrução
primária é muito mais alto entre aquelas que se casaram com mais de 20 anos do que as
que se casaram com menos (veja a Tabela 5). Na
América Latina, as mulheres do Brasil, El Salvador, Guatemala, México e Paraguai, que
adiaram o casamento para depois dos 20 anos, tinham de duas a três vezes maior
probabilidade de ter concluído sete anos de escola do que aquelas que tinham se casado
mais cedo (450). Esse tipo de correlação é também forte na Ásia e Oriente Médio.
A educação continua fora do alcance de muitos, particularmente as mulheres jovens,
porque muitos países em desenvolvimento não oferecem instrução escolar a todos os
jovens, principalmente àqueles que vivem nas áreas rurais e àqueles que estão no
nível secundário (485). Por exemplo, no estado Kano, ao norte da Nigéria, 30.000
meninas completam o curso primário a cada ano, mas as escolas secundárias públicas
comportam apenas um décimo dessas. Apesar do número de novas matrículas de mulheres
jovens nas escolas secundárias ter mais do que triplicado na África e quase que dobrado
na Ásia, entre 1960 e 1980, o número de matrículas dos rapazes continua a ser mais alto
(207, 485). Considerados ambos os sexos, os adolescentes urbanos têm probabilidade muito
maior de que os adolescentes da área rural de obter mais de seis anos de educação
formal (450).
Na maioria das áreas, as mulheres que passam por mais anos de educação formal têm
maior probabilidade de adiar a procriação e o casamento do que suas colegas com pouca ou
nenhuma instrução. As mulheres que começam cedo a ter filhos raramente voltam à
escola, seja porque a escola não o permite ou porque as responsabilidades maternais o
impedem. As mulheres que abandonam cedo a escola, por qualquer razão, geralmente acabam
se casando e tendo filhos dentro de um ano (39).
Os Padrões de Fertilidade dos
Adultos Jovens
A cada ano, 15 milhões de mulheres com menos de 20 anos dão à luz, o que corresponde
a um quinto de todos os nascimentos mundiais (394). Muitas dessas gravidezes e partos são
involuntários. Nas Pesquisas Demográficas e de Saúde relativas a países determinados
da África e América Latina, entre as mulheres com menos de 20 anos, cerca de 20% a 60%
daquelas que estavam grávidas no momento da pesquisa declararam que sua gravidez era
inoportuna ou indesejada. Percentuais semelhantes das mulheres que já tinham dado à luz
declararam que seu último parto tinha sido inoportuno ou indesejado (veja a Tabela 6). A maior parte dessas gravidezes e
partos involuntários eram inoportunos, ao invés de indesejados. Nos Estados Unidos, onde
1 milhão de mulheres com menos de 20 anos engravida anualmente, 82% dessas gravidezes
são involuntárias (17, 578). Mas elas não estão sozinhas nesse sentido. Mesmo na faixa
de 30–34 anos, onde ocorre o menor nível de gravidezes involuntárias, este nível
ainda atinge 42% (578).
Mesmo entre mulheres casadas jovens, muitos nascimentos são involuntários.
Freqüentemente, o casamento foi apressado devido a uma gravidez não intencional. Por
exemplo, no Chile, 35% das mulheres casadas com idade entre 15 e 20 anos, informaram que
seus primeiros partos tinham sido involuntários e 42% dessas gravidezes tinham se
originado antes do casamento (204). Pesquisas feitas em seis países africanos constataram
que entre um quarto e metade dos primeiros partos de mulheres casadas entre 15 e 19 anos
de idade, tinham sido involuntários (119, 120, 122, 124, 126, 127). As gravidezes
involuntárias não são raras mesmo em locais onde o normal é casar e começar a
procriar mais cedo. Por exemplo, no Paquistão, eram involuntárias 42% das gravidezes em
curso entre mulheres jovens casadas em algum momento da vida. No Egito, esse percentual
era de 24% (veja a Tabela 6). Na Índia, entre
as mulheres casadas em algum momento da vida, 16% das gravidezes em curso e dos partos nos
últimos quatro anos, eram involuntários (583).
A gravidez de uma mulher jovem tem maior probabilidade de ser involuntária se essa
jovem não for casada. Por exemplo, no Quênia, o percentual de gravidezes em curso entre
as mulheres da faixa de idade de 15–19 anos, que foram relatadas às Pesquisas
Demográficas e de Saúde como gravidezes inoportunas ou indesejadas, atingia 47% entre as
mulheres casadas e 74% entre as solteiras. No Peru, eram involuntárias 51% das gravidezes
em curso entre mulheres casadas e 69% entre as solteiras. Outras pesquisas feitas na
América Latina indicam que de 44% a 76% das primeiras gravidezes entre mulheres solteiras
eram involuntárias (338). Entre mulheres que nunca tinham sido casadas, de idade entre 15
e 24 anos, 59% (na Costa Rica) e 65% (no Brasil) informaram que suas primeiras gravidezes
tinham sido involuntárias. Freqüentemente, tais gravidezes terminam em abortos, mesmo em
locais onde a prática do aborto não é segura (54).
A maioria das mulheres jovens dos países em desenvolvimento ainda têm seu primeiro
filho dentro do casamento. Por isso, a idade mediana do primeiro parto ainda segue de
perto a idade mediana do casamento (519) (veja as Tabelas
2 e 5). Nos países desenvolvidos e certas
partes da Ásia e do Oriente Médio, onde a maioria das mulheres se casam com mais de 20
anos, são baixas as taxas de fertilidade entre as mulheres na faixa de 15–19 anos de
idade. Nos países onde a maioria das mulheres ainda se casa cedo, permanecem altas as
taxas de fertilidade entre mulheres da faixa de 15–19 anos, atingindo ou
ultrapassando 200 nascimentos por 1.000 mulheres em lugares tais como Mali e Niger (veja a
Tabela 7).
Enquanto subia a idade no casamento durante o final dos anos 70 e durante os anos 80,
as taxas de fertilidade entre as mulheres com menos de 20 anos decresciam em muitos
países (298, 441, 490). Esse declínio foi particularmente dramático em grande parte da
Ásia (298, 490). Outro indicador do declínio da fertilidade entre mulheres jovens é a
queda do percentual de mulheres que deram à luz antes de completar 20 anos. Na maioria
dos países, à exceção da África Sub-Saariana, um percentual menor de mulheres da
faixa de 20 a 24 anos, por ocasião de uma pesquisa recente, tinham dado à luz antes dos
20 anos, em comparação com as gerações anteriores (veja a Tabela 2). Em quase todos os países, as mulheres
da área rural e as mulheres com nível educacional mais baixo tinham maior probabilidade
de dar à luz antes de completar 20 anos (490, 579). As diferenças entre campo e cidade
atingem o máximo entre as mulheres mais jovens desta faixa de idade, porque as mulheres
urbanas de idade entre 15 e 17 anos têm menor probabilidade de serem casadas e maior
probabilidade de estar estudando do que suas correspondentes na área rural (370, 490).
Mesmo com a queda geral das taxas de fertilidade, é crescente o número de mães jovens solteiras em muitas regiões (54, 185). Por exemplo, uma análise de dados das DHS, coletados para Burundi, Gana, Quênia, Libéria, Mali, Togo e Zimbábue, demonstrou que o
percentual de mulheres que deu à luz antes do casamento aumentou em todos os sete países
(166). A procriação pré-marital era mais comum entre as mulheres alfabetizadas do que
entre as analfabetas em todos esses países, à exceção de Zimbábue. Este aumento
parece resultar não de atividade sexual precoce mas sim de casamentos mais tardios, já
que as mulheres alfabetizadas na maioria desses países iniciou sua atividade sexual em
idade posterior à das mulheres analfabetas mas também postergou o casamento. Assim,
essas mulheres jovens passam mais tempo expostas ao risco de gravidez pré-marital e têm
maior probabilidade de dar à luz antes do casamento (166).
Os Adultos Jovens e o Uso de
Anticoncepcionais
Os jovens sexualmente ativos têm menor probabilidade de usar anticoncepcionais do que
os adultos, mesmo dentro do casamento (veja a Tabela
7). No caso dos casais jovens, isto talvez se deva ao desejo de ter um filho ou ao
fato de que o casamento resultou de uma gravidez pré-marital. À exceção da América
Latina, poucas mulheres jovens utilizam anticoncepcionais entre o casamento e a primeira
gravidez; a maioria das mulheres que se casam jovens têm pelo menos um filho antes de
completar 20 anos (450). Depois do primeiro filho, algumas mulheres começam a usar
anticoncepcionais para dar mais espaço de tempo até o próximo nascimento. As mulheres
jovens solteiras, que enfrentam barreiras adicionais na obtenção de anticoncepcionais,
incluindo a desaprovação social do uso de anticoncepcionais, têm ainda menos
probabilidade de usar a anticoncepção do que as mulheres jovens casadas.
Poucos jovens solteiros usam anticoncepcionais na primeira vez que têm relações
sexuais. Entre as mulheres de idade entre 15 e 24 anos pesquisadas na América Latina e
Caribe, os níveis de uso de anticoncepcionais por ocasião da primeira relação sexual
variavam de 4%, em Quito, a 43%, na Jamaica. O percentual de homens de idade entre 15 e 24
anos que usou um anticoncepcional por ocasião da primeira relação sexual variava de
14%, em Quito e Guaiaquil, a 31%, na Cidade do México. O uso de anticoncepcionais por
ocasião da primeira relação sexual aumenta com a idade (338).
Os estudos conduzidos nos EUA e outros países constataram que as mulheres deixam
passar pelo menos um ano, em média, entre o início da atividade sexual e o primeiro uso
de anticoncepcionais modernos ((17, 108, 245). Assim, a atividade sexual pré-marital
resulta em gravidez involuntária. Na Cidade do México, cerca de dois terços das
mulheres na faixa de 18 a 19 anos, com experiência sexual pré-marital, relataram que
tinham engravidado pelo menos uma vez (337).
Num estudo feito no Zimbábue, 46% das mulheres sexualmente ativas antes do casamento,
de idade entre 11 e 19 anos, já tinham engravidado (62). Muitas gravidezes não
planejadas ocorrem dentro de um ano após a primeira relação sexual (108, 562). Por
exemplo, entre 200 moças pesquisadas, de 16 anos de idade, que deram à luz na
Maternidade Harare no Zimbábue, mais da metade tinha engravidado dentro de apenas três
meses após o início de sua atividade sexual (304).
Por que não é maior o número de jovens que usam anticoncepcionais, se já têm uma vida sexual? A explicação mais comum que tanto rapazes como moças dão por não usar
anticoncepcionais é a de que não achavam que iam ter relações sexuais. A segunda
explicação mais freqüente é a de que não estavam informados sobre os métodos
anticoncepcionais (255, 337, 338). No entanto, as outras explicações para o baixo nível
de uso anticoncepcional podem ser mais sutis e até mais difíceis de abordar.
Falta de informação. Os jovens, normalmente, sabem pouco ou dispõem de
informações incorretas quanto à fertilidade e o uso de anticoncepcionais. Os rapazes
têm maior probabilidade do que as moças de mencionar a falta de conhecimento e muito
maior probabilidade de dizer que cabe à parceira a responsabilidade de evitar a gravidez
(39, 49, 337). Mesmo quando os jovens conseguem nomear anticoncepcionais, freqüentemente
eles não sabem onde obtê-los ou como usá-los (13, 118). Como muitos adultos, muitos
jovens têm atitudes negativas sobre os anticoncepcionais, ouviram boatos sobre seus
efeitos e receberam informações equivocadas sobre os anticoncepcionais. Por exemplo,
estudantes no Quênia e na Nigéria tinham ouvido falar de anticoncepcionais mas estavam
equivocados quanto aos seus efeitos colaterais (39).
Falta de acesso. Mesmo quando os adultos jovens têm conhecimento dos anticoncepcionais, poucos os utilizam (13, 14, 294). Geralmente isso ocorre porque é mais
difícil para os adultos jovens obter anticoncepcionais do que para adultos casados, de
maior idade. Os adultos jovens são geralmente saudáveis e não estão acostumados a
visitar serviços de saúde ou clínicas. Não sabem onde ir ou o que esperar. Muitos não
têm condições de pagar pelos serviços ou pelo transporte até as clínicas. Em muitos
países, existem leis que proíbem ou limitam o fornecimento de anticoncepcionais,
serviços ou até de informação aos jovens (113, 371). Mesmo quando o acesso não está
restrito por lei, alguns serviços de planejamento familiar têm diretrizes ou
preconceitos contra o atendimento a pessoas solteiras. Quando o pessoal de atendimento nas
clínicas é descortês ou preconceituoso, os jovens não se sentem inclinados a buscar os
anticoncepcionais. Por exemplo, um estudo na África do Sul utilizou jovens trabalhadores
de campo que fingiam ser clientes buscando obter anticoncepcionais e que relataram,
posteriormente, que, em algumas clínicas, o pessoal resistia a aceitar seus pedidos de
preservativos e, freqüentemente, não oferecia instruções sobre o uso dos preservativos
(5).
Falta de poder decisório e de autoridade. Mesmo quando os adultos jovens têm
informações sobre os anticoncepcionais e acesso aos serviços, muitos fatores
contextuais afetam suas práticas anticoncepcionais. O nível de comunicação entre os
parceiros sexuais, as atitudes sobre os papéis sociais e sexuais e o caráter de tabu da
atividade sexual são todos fatores que influenciam a tomada de decisões por parte de
adultos jovens (51, 359). Por exemplo, em muitas culturas raramente se discutem as
questões relacionadas ao sexo, mesmo entre marido e mulher. Jovens solteiros podem estar
ainda menos inclinados a discutir o uso de anticoncepcionais. Muitos adultos jovens vêem
o uso de anticoncepcionais como algo exclusivo para adultos casados que desejam espaçar
seus filhos (430). Alguns homens e mesmo algumas mulheres podem desaprovar a
anticoncepção por crer que a mesma estimula as mulheres à promiscuidade (49, 359, 515).
Além disso, as atitudes sociais que condenam as moças que planejam sua vida sexual,
combinadas às percepções de que o planejamento do sexo prejudica o romantismo de uma
relação, podem não deter a atividade sexual mas podem inibir o uso de
anticoncepcionais. Tais atitudes aumentam a vulnerabilidade das moças às doenças
sexualmente transmitidas (DSTs) e à gravidez (49, 515). Além disso, as mulheres jovens,
especialmente aquelas envolvidas com parceiros mais velhos, podem não se sentir à
vontade para discutir ou negociar o uso de anticoncepcionais. E algumas jovens não podem
usar anticoncepcionais, quando a relação sexual é indesejada e forçada.
Necessidades Insatisfeitas dos
Adultos Jovens
As pessoas sexualmente ativas que não desejam uma gravidez mas não estão usando
anticoncepcionais são definidas como tendo necessidades insatisfeitas de anticoncepção (520). A estimativa das necessidades insatisfeitas concentrou-se tradicionalmente nas mulheres casadas, tendo omitido os solteiros e os jovens — um dos maiores grupos cujas
necessidades de serviços de saúde reprodutiva e de anticoncepcionais não estão sendo
atendidas (61, 135, 136, 518, 591). Usando os dados das DHS sobre mulheres solteiras na
África Sub-Saariana, Charles Westoff e Akinrinola Bankole estimaram que 8% das mulheres
solteiras, de idade entre 15 e 19 anos, têm uma necessidade insatisfeita de
anticoncepção, apesar dos dados atingirem até 25% em Zâmbia e Gana e 34% em Botsuana
(veja a Tabela 8). Apesar de não ser
possível assumir que toda mulher sexualmente ativa e que nunca tenha casado deseje evitar
a gravidez, é evidente que as necessidades de saúde reprodutiva de muitas mulheres
jovens continuam insatisfeitas. Esse não atendimento fica também evidente nos altos
índices de DSTs, concepção pré-marital e gravidez não planejada, bem como na
mortalidade e morbidade que resultam de abortos feitos de forma insegura pelos jovens.
(Veja o Quadro 1)
Population Reports is published by the Population Information Program, Center for Communication Programs, The Johns Hopkins School of Public Health, 111 Market Place, Suite 310, Baltimore, Maryland 21202-4012, USA
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