Transfusão em pacientes em estado crítico questionada

04 de outubro de 2002
Equipe Editorial Bibliomed

04 de Outubro de 2002 (Bibliomed). O uso de transfusões de hemoderivados para aumento da hemoglobina em pacientes em estado crítico é freqüente, mas estudo lança dúvidas quanto à sua eficácia e interferência na progressão do quadro.

O estudo, realizado pela equipe do Dr. Jean Louis Vincent da Universidade de Bruxelas na Bélgica, mostra que indivíduos que recebem estas transfusões para alívio da anemia são mais propensos a evoluir para óbito do que os que não as recebem. Apesar de não culpar diretamente as transfusões pelas mortes, a equipe adverte quanto ao uso excessivo desta prática.

A despeito da possível conexão entre transfusões e risco aumentado de morte e complicações, os pesquisadores advertem que os resultados não significam contra-indicação para a realização de transfusões, mas apenas um chamado para que a hemotransfusão seja sempre considerada com cautela em todas as situações, devendo ser evitada sempre que possível.

A equipe do Dr. Vincent realizou um estudo em duas etapas. Em uma delas os pesquisadores fizeram levantamento sobre a freqüência das punções venosas – e o total de sangue que elas retiravam dos pacientes – e a quantidade de hemoderivados recebida em um período de 24 horas. Na Segunda parte do estudo, os pesquisadores fizeram um levantamento do número de hemotransfusões recebidas pelos pacientes. Eles também monitoraram os níveis de hemoglobina e fizeram levantamento da taxa de morte e disfunções orgânicas.

A primeira parte do estudo incluiu mais de 1.100 pacientes e encontrou que 46% dos pacientes foram submetidos a cinco ou mais coletas de sangue em 24 horas. Em média, os pacientes perderam 41 mililitros de sangue por dia.

Na Segunda parte do estudo 29% dos pacientes receberam diagnóstico de anemia – hemoglobina menor que 10g/dl. Trinta e sete por cento recebeu pelo menos uma hemotransfusão na UTI e cerca de 13% recebeu uma hemotransfusão após deixar a UTI.

Em geral, os pacientes que receberam as hemotransfusões foram mais propensos a morrer dentro de 28 dias após admissão na UTI – 19% nos transfundidos contra 10% dos não transfundidos. A taxa de mortalidade foi diretamente proporcional à quantidade de hemácias transfundidas. A relação permaneceu estatisticamente significativa após ajuste dos dados quanto à gravidade do quadro inicial.

Os pesquisadores chamam a atenção para estratégias alternativas à transfusão de hemoderivados, como o uso de eritropoetina em indivíduos em estado crítico. Outra possível estratégia seria a racionalização das coletas de sangue, para que se reduza ao mínimo possível a quantidade de sangue perdida por estes pacientes durante sua estada na UTI. O estudo foi publicado no The Journal of the American Medical Association e foi patrocinado pela indústria farmacêutica Janssen-Cilag – fabricante da eritropoetina recombinante – e pela fundação Robert Wood Johnson Pharmaceutical Research Institute.

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