04 - Uso de anticoncepcionais


Equipe Editorial Bibliomed

Pesquisas repetidas desde 1990 sugerem que uma porcentagem crescente de homens vêm adotando a contracepção, sobretudo por meio do uso de preservativos. No entanto, em muitos países pesquisados, a maior parte deles na África sub-Saara, é minoritário o grupo de homens que declara estar usando um método anticoncepcional à época da entrevista.

Nas pesquisas, seria de se esperar que tanto homens como mulheres casados declarariam níveis similares de uso de anticoncepcionais, já que os casais praticam a contracepção juntos.3 Mas a verdade é que os homens tendem a relatar níveis mais altos de uso de anticoncepcionais do que as mulheres. Esta constatação indica que alguns homens usam os anticoncepcionais em relações extraconjugais.

Homens casados: a maioria não usa anticoncepcionais

Entre os homens casados de idade reprodutiva, os níveis de uso atual de anticoncepcionais (modernos ou tradicionais) variam enormemente entre os 46 países pesquisados, de 9% em Moçambique e Níger, a até 77% na Albânia (onde quase todos os usos detectados são de métodos tradicionais) (ver a Tabela 1). Em somente 16 dos países pesquisados, a maioria dos homens casados pesquisados relatam usar algum tipo de contracepção.

Veja Tabela 1

Em 32 dos 46 países, a maioria dos homens casados que usam anticoncepcionais utilizam métodos modernos, particularmente os anticoncepcionais orais (ACOs), os preservativos masculinos, os injetáveis e a esterilização feminina. O uso declarado da esterilização masculina é o mais alto no Nepal, onde atinge 7%. Em todos os outros países pesquisados, no máximo 2% dos homens declaram usar a esterilização.

Em 14 países, os homens usam dois métodos tradicionais – abstinência periódica e coito interrompido – com tanta ou maior freqüência dos que os métodos modernos. 11 destes 14 países estão na África sub-Saara e os outros são Albânia, Bolívia e Romênia (ver a Tabela 1).

Entre os 16 países que já repetiram as pesquisas com os homens desde 1990, o uso de anticoncepcionais por homens casados aumentou em 12 deles, o que reflete sobretudo o aumento do uso dos métodos modernos (ver a Figura 2 e a Tabela Web 1).4 Mas somente em Burkina Faso, Camarões e Tanzânia este aumento foi de pelo menos 10%. Na Tanzânia, o aumento do uso de anticoncepcionais se explica pelo aumento do uso de métodos modernos, sobretudo preservativos e injetáveis, enquanto que em Burkina Faso e Camarões ele se explica principalmente pelo maior uso da abstinência periódica.

Reduziram-se os níveis de uso de anticoncepcionais em 4 países, mas este declínio foi substancial somente em Ruanda – de 34%, em 1992, a 19%, em 2000 (ver a Figura 2 e a Tabela Web 1). Esta queda relatada pode ser explicada talvez pela ocorrência de conflitos civis internos, mas também pode refletir alguma diferença na forma de fazer a pergunta na pesquisa. Em 1992, a pesquisa de Ruanda perguntou aos homens se estavam usando os anticoncepcionais no momento. Mas em 2000, a pesquisa perguntou aos homens sobre o uso de anticoncepcionais na última vez que tiveram relações sexuais com suas mulheres.

Muitos homens solteiros sexualmente ativos usam preservativos

Entre os 36 países que dispõem de dados sobre homens solteiros sexualmente ativos de idade reprodutiva, os níveis de uso dos anticoncepcionais à época da entrevista variam de 11% na Albânia a 89% no Cazaquistão (ver a Tabela 2). Em todos os países pesquisados, à exceção da Albânia, os homens declaram usar mais os métodos modernos, principalmente preservativos, do que os métodos tradicionais.

Em 15 países, pelo menos 40% dos homens solteiros sexualmente ativos declaram estar usando preservativos, proporção esta que atinge 64% na Jamaica e 72% no Cazaquistão. O uso de preservativos parece ter aumentado em 8 dos 9 países que já repetiram a pesquisa desde 1990 (ver a Figura 3 e a Tabela Web 2).

O uso de preservativos é muito maior entre homens solteiros sexualmente ativos do que entre os homens casados. Em 29 dos 36 países que têm dados tanto sobre homens solteiros como casados, o uso dos anticoncepcionais à época da entrevista é maior e, às vezes, muito maior, entre os homens solteiros sexualmente ativos do que entre os homens casados. No caso dos preservativos, seu uso é maior entre os homens solteiros sexualmente ativos do que os homens casados em todos os 36 países. Em 27 dos 36 países, homens solteiros sexualmente ativos têm pelo menos 5 vezes mais probabilidade do que os homens casados de declarar o uso de preservativos.

Segundo estudos conduzidos na África, muitos homens casados se negam a usar preservativos nas relações sexuais com suas esposas porque associam o uso dos preservativos à infidelidade conjugal, ou seja, temem que suas esposas desconfiem deles se insistirem em usar os preservativos (6, 10). Os homens solteiros têm maior probabilidade do que os homens casados de usar preservativos porque querem se proteger contra o HIV/AIDS e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e para evitar a gravidez das mulheres com quem têm relações sexuais.

Os homens diferem das mulheres ao declarar o uso de anticoncepcionais

Ao responder às pesquisas, os homens têm a tendência de relatar a mais o uso de anticoncepcionais, sobretudo os preservativos, enquanto que as mulheres tendem a relatar a menos este uso (7, 16). Nas sociedades que associam o planejamento familiar com a modernidade, os homens podem exagerar o uso de anticoncepcionais para não serem considerados como pessoas tradicionais (7). Também podem afirmar à pesquisa que usam anticoncepcionais para serem percebidos como pessoas que cuidam bem de suas famílias, especialmente se acharem que os entrevistadores estão ligados a algum programa de planejamento familiar (29). Por outro lado, algumas mulheres casadas hesitam em declarar que usam preservativos, particularmente em sociedades que não estimulam a discussão aberta da sexualidade, ou onde o uso do preservativo é visto como uma indicação de relações extraconjugais (7, 16).

Mas os pesquisadores tendem a concordar que as mulheres dão respostas mais precisas do que os homens às pesquisas sobre o uso de anticoncepcionais (7, 16, 20). A maioria dos métodos anticoncepcionais podem ser controlados pelas mulheres e, portanto, é mais provável que elas estejam melhor informadas sobre seu uso real. Algumas mulheres usam ACOs, DIUs e injetáveis sem o conhecimento de seus parceiros. Além do mais, as mulheres geralmente têm mais motivação do que os homens de saber se estão protegidas contra a gravidez porque são elas, e não os homens, que enfrentam os riscos de uma gravidez indesejada.

Em 41 dos 46 países pesquisados, os homens casados declararam níveis mais elevados de uso dos anticoncepcionais do que as mulheres casadas.5 As diferenças são particularmente grandes na África sub-Saara. Em 15 dos 25 países pesquisados nessa região, os homens casados declaram usar os anticoncepcionais pelo menos 10% a mais dos que as mulheres casadas, sendo que em Burkina Faso esta proporção chega a 27% (ver a Figura 4).

Além disso, em 24 dos 36 países que fizeram pesquisas tanto de homens como de mulheres solteiros e sexualmente ativos, o número dos homens deste grupo que usavam anticoncepcionais à época da pesquisa era maior do que as mulheres do mesmo grupo. Mas as diferenças são menores entre os homens e mulheres casados.

As diferenças devem-se ao uso de preservativos. Grande parte da diferença entre o que os homens e mulheres declaram em termos de uso de anticoncepcionais deve-se às diferenças no uso de preservativos. Em 42 dos 46 países que dispõem de pesquisas com homens casados – à exceção da Albânia, Bolívia, Egito e Marrocos – os homens casados declaram níveis mais elevados de uso de preservativos do que as mulheres casadas. Além disso, em 36 dos 46 países um número maior de homens casados do que de mulheres casadas declaram depender da abstinência periódica e, em 19 países, do coito interrompido.

Uma razão pela qual os homens casados declaram usar os preservativos mais do que as mulheres é que alguns homens casados usam-nos nas relações extraconjugais (enquanto que, para as mulheres casadas, é pouco aceitável que tenham relações sexuais fora do casamento). Alguns homens têm várias esposas, sobretudo na região da África sub-Saara (7, 16, 21). Nas pesquisas DHS, os homens só podem responder sobre o uso de um único tipo de anticoncepcionais à época da entrevista; o questionário para as pesquisas com os homens não indaga sobre o uso de anticoncepcionais com cada esposa ou parceira sexual separadamente. Portanto, os homens poderão declarar o uso de um método particular de anticoncepcional quando, na verdade, usam dois ou mais métodos, dependendo da parceira. Numa análise recente dos dados DHS, as diferenças de uso de anticoncepcionais entre casais polígamos e monógamos não eram estatisticamente significativas quando o marido, em um casamento polígamo, declarava o uso de um método que correspondia ao método declarado por qualquer uma de suas esposas (7).

Em 2000, os países tiveram a oportunidade de usar um novo questionário DHS. Neste, os homens respondem sobre o uso de anticoncepcionais na última relação sexual com até três parceiras durante os últimos 12 meses (veja, por exemplo, a pesquisa DHS do Haiti (33) e a pesquisa DHS de Ruanda (34), ambas em 2000). Nas pesquisas RHS os homens vêm respondendo a esta pergunta desde meados de 90, além das perguntas sobre o uso atual (31).

Persistem as discrepâncias entre os homens e mulheres monógamos e fiéis aos seus parceiros, no que se refere ao uso declarado de anticoncepcionais (7, 45). Várias razões podem explicar a continuidade destas discrepâncias. Por exemplo, um dos cônjuges poderá não estar ciente de que o outro deixou de usar um método ou de que um parceiro poderá estar usando o anticoncepcional sem que o outro saiba. Os parceiros poderão ter idéias diferentes sobre o que constitui uso "atual" de anticoncepcionais ou poderão entender diferentemente o que é um método anticoncepcional qualquer (por exemplo, um parceiro poderá definir abstinência periódica como abstinência esporádica durante o período após o parto ou durante a menstruação da mulher, enquanto que o outro poderá defini-la mais precisamente como abstinência deliberada durante o período fértil da mulher). Além do mais, os entrevistados poderão dar as respostas que pensem ser mais socialmente aceitáveis, seja exagerando ou escondendo a prática anticoncepcional, dependendo do contexto (7, 9, 16, 45).

Grande variação entre grupos de homens casados quanto ao uso de anticoncepcionais

Os homens casados diferem em seus níveis de uso atual de anticoncepcionais dependendo de suas características demográficas e sócio-econômicas, inclusive nível de instrução, residência urbana ou rural e número de filhos. Tais diferenças são semelhantes às diferenças de uso de anticoncepcionais entre grupos diferentes de mulheres, com algumas exceções.

O nível de instrução afeta o uso de anticoncepcionais. Quanto mais elevado o nível de instrução dos homens, maior sua probabilidade de usar anticoncepcionais (1, 12, 28, 36). Em todos os 46 países pesquisados desde 1990, exceto a Mauritânia, o uso de anticoncepcionais pelos homens casados aumenta de forma consistente com seu nível de instrução (ver a Tabela Web A).

Residência urbana ou rural. Em todos os países pesquisados exceto a Ruanda, o uso de anticoncepcionais é consistentemente maior entre os homens casados de áreas urbanas do que os de áreas rurais. Em 10 dos 46 países, o uso de anticoncepcionais entre os homens casados que vivem em áreas urbanas é pelo menos 20% mais alto do que entre os que vivem na área rural. As menores diferenças são encontradas na República Dominicana, Jamaica e Ruanda, onde os homens casados de áreas rurais têm quase a mesma probabilidade que os homens das áreas urbanas de usar anticoncepcionais (ver a Tabela Web A).

Idade. Entre os homens casados, o uso da contracepção atinge geralmente o pico entre os 30 a 49 anos (ver a Tabela Web A). Entre as mulheres casadas, o pico de uso de anticoncepcionais situa-se numa faixa mais estreita de idade: entre os 30 e 39 anos.

Número de filhos. Em geral, como no caso das mulheres casadas, os homens casados sem nenhum filho têm mais chance de usar anticoncepcionais do que os que já têm algum filho. Mas os padrões de uso entre os homens não são tão claramente definidos como entre as mulheres casadas (ver o relatório complementar sobre as pesquisas feitas com mulheres) (52). Em 34 dos 45 países pesquisados, o nível mais alto de uso de anticoncepcionais é dos homens que têm dois ou três filhos. Em mais da metade dos países pesquisados, pelo menos 30% dos homens casados com quatro ou mais filhos declaram usar os anticoncepcionais (ver a Tabela Web A).

Alguns não usuários dizem ter a intenção de usar a contracepção no futuro

As pesquisas perguntam aos homens casados que não estão usando anticoncepcionais no momento se eles têm a intenção de usá-los no futuro, seja nos próximos 12 meses ou mais tarde. Em 32 dos 43 países pesquisados, pelo menos 30% destes homens respondem ter a intenção de usar a contracepção no futuro. A porcentagem varia amplamente entre os países pesquisados, desde 12% na Mauritânia e Senegal a até mais de 60% em Bangladesh, Cabo Verde, Malawi, Nepal, Uganda, Zâmbia e Zimbábue (ver a Tabela 3).

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A maioria dos homens que dizem não ter a intenção de usar a contracepção explicam que desejam ter mais filhos ou que suas esposas têm um risco muito pequeno de engravidar (seja porque eles ou suas esposas são inférteis ou porque as esposas já passaram da menopausa). Em 21 dos 41 países – 17 da África sub-Saara e mais a República Dominicana, Mauritânia, Marrocos e Paquistão – a principal razão que os homens dão é o desejo de ter mais filhos. Em 14 países – a maioria deles fora da África sub-Saara – a principal razão é que suas parceiras têm pouca probabilidade de engravidar (ver a Tabela 4).

Outra razão importante que os homens declaram é a oposição ao próprio planejamento familiar, seja por motivos religiosos ou outros. Além disso, na África sub-Saara e alguns outros países de outras regiões, alguns homens dizem não ter a intenção de usar os anticoncepcionais porque admitem saber pouco sobre os mesmos ou sobre como e onde obtê-los. Os homens têm menor probabilidade dos que as mulheres de mencionar seus temores com relação à saúde ou aos efeitos laterais de métodos anticoncepcionais como razões importantes para não usar o planejamento familiar (ver o relatório complementar sobre as pesquisas feitas com mulheres) (52).

Notas:

2 Em 1999, foi conduzida também uma pesquisa com homens na Nigéria. Os dados foram coletados com uma assistência técnica limitada do programa DHS. A pesquisa DHS publica os resultados da pesquisa de 1999, porém os dados não foram incluídos neste informe por haver dúvidas quanto à sua comparabilidade.

3 As pesquisas consideram o uso de anticoncepcionais tanto como o uso pela pessoa entrevistada como por seu/sua parceira.

4 Devido à limitação de espaço, não foi possível incluir nas tabelas impressas todos os dados nos quais se baseou a discussão deste informe. Estes dados estão disponíveis aos leitores de várias outras formas, inclusive pela Internet: http://www.populationreports.org/m18/m18tables.shtml (ver quadro).

5 As comparações entre as respostas dos homens e mulheres neste informe restringem-se aos países que dispõem de dados comparáveis sobre ambos os sexos.
 

Population Reports é publicado pelo Population Information Program, Center for Communication Programs, The Johns Hopkins School of Public Health, 111 Market Place, Suite 310, Baltimore, Maryland 21202-4012, USA.

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