Capítulo 08 - Citologia Cervicovaginal

Roberto Junqueira de Alvarenga

Introdução

Müller, em 1838, na Alemanha, descreveu e ilustrou células retiradas de tumor.

Dusan Lambl, em 1846, trabalhando no Instituto de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina de Praga, acreditava que o diagnóstico de câncer poderia ser feito a partir de células esfoliadas, tendo até mesmo publicado cinco casos documentados com figuras, nos quais encontrou células cancerosas quando cateterizou e lavou a bexiga.

Somente em 1928 duas publicações, quase que simultâneas, uma na Romênia e outra nos Estados Unidos, foram apresentadas respectivamente por Babes e Papanicolaou sobre citologia diagnóstica do trato reprodutivo feminino.

O trabalho de Babes foi apresentado à Sociedade de Ginecologia de Bucarest, em 1927, e versava sobre o câncer cervical. já o trabalho de Papanicolaou foi apresentado em Battle Creek, Estado de Michigan, em 4 de janeiro de 1928, e relacionava-se a estudos que o mesmo vinha desenvolvendo desde 1925.

Papanicolaou, já há muitos anos, vinha estudando as células encontradas no fluido vaginal de animais e humanos, tanto assim que em 1917, juntamente com Stockard, publicou monografia sobre o ciclo da cobaia. Em 1939, decidiu explorar a possibilidade de aplicar a técnica citológica a um diagnóstico precoce do câncer.

Papanicolaou trabalhava no Departamento de Anatomia da Universidade de Cornell, que tinha como professor associado de Obstetrícia e Ginecologia o Dr. Herbert F. Traut, possuidor de vasta experiência em fisiologia e patologia ginecológicas, além de acesso ao excelente material do New York Hospital. juntou-se a Papanicolaou e publicaram, em 1943, a monografia "Diagnosis of Uterine Cancer by the Vaginal Smear", que se tornou um marco na história da citopatologia ginecológica.

Por incrível que pareça, Papanicolaou encontrou sérias resistências ao seu trabalho, principalmente por parte dos anatomopatologistas, os quais não admitiam que se fizesse um diagnóstico de malignidade com base unicamente no estudo morfológico das células. O maior apoio que Papanicolaou obteve foi de ginecologistas, e somente após anatomopatologistas de renome, como Chandler Foot, terem se associado ao mesmo e que o exame citológico passou a ser aceito e respeitado.

Com o emprego do exame citológico, a redução da mortalidade, nos Estados Unidos, por carcinoma escamocelular do colo uterino, foi de mais de 70% nos últimos 40 anos, segundo a American Cancer Society.

Classificação

  • A classificação original de Papanicolaou em classes I a V era baseada na opinião do citopatologista, considerando as células anormais ou malignas, mais do que em uma correlação histopatológica, e tinha as seguintes classes com os respectivos significados:


  • Classe I - ausência de atipias celulares.


  • Classe II - discretas atipias celulares.


  • Classe III - células suspeitas, porem não diagnósticas de câncer.


  • Classe IV - células suficientemente conclusivas de malignidade.


  • Classe V - células diagnósticas de câncer


  • Nos seus laudos, as cinco classes eram reunidas em três grupos:

  • Classes I e H - negativo para câncer.


  • Classe III - suspeito de câncer.


  • Classes IV e V - positivo para câncer.


  • Tal classificação nem sempre era usada uniformemente pelos citopatologistas, e muitos criaram suas próprias modificações (classificações e subclassificações), contribuindo dessa maneira para trazer grande confusão, quando os resultados de um citopatologista eram confrontados com resultados de outro.

    A classificação de Papanicolaou, quando usada, teve sua grande utilidade nos levantamentos de massa, nas campanhas de prevenção e detecção do câncer cervicouterino.

    Levando-se em conta que um laudo citopatológico é uma consulta, da mesma forma que um laudo histopatológico, a International Academy of Cytology desaconselhou o uso da classificação de Papanicolaou, assim como de qualquer outra que venha expressar simplesmente graus de confiança e/ ou incerteza por parte do examinador, recomendando que todos os laboratórios de citopatologia usassem diagnósticos citológicos baseados em critérios morfológicos.

    O termo displasia, significando lesão "menor" do que câncer, foi introduzido pela primeira vez em 1949, por Papanicolaou, e largamente difundido por Reagan, Seidemann e Saracusa, em 1953.

    Como as evidências científicas vinham mostrando que havia uma progressão dessas lesões até o aparecimento do câncer, os patologistas começaram a usar as designações de displasia leve, moderada e acentuada, refletindo graus de anormalidade celular.

    Em 1968, Richart introduziu o termo neoplasia intra-epitelial cervical, com graus 1, 2 e 3, chamando a atenção para um processo contínuo de precursores até o carcinoma invasivo.

    Os critérios para a graduação eram morfológicos e baseados na arquitetura tecidual, levando-se em conta a proporção do epitélio comprometido pelo crescimento desordenado e as atipias celulares encontradas no mesmo. Assim:

  • NIC I quando somente o terço inferior é comprometido.


  • NIC H quando mais de um terço e menos de dois terços estiver comprometido.


  • NIC III quando o comprometimento for superior aos dois terços da espessura do revestimento epitelial.



  • Quando comparadas as displasias e as NIC, poderemos dizer que as displasias leve e moderada correspondem à NIC I e à NIC II, respectivamente. Em relação à NIC III, vemos que a mesma engloba não só displasia acentuada, como carcinoma in situ.

    Richart considerava que o grau das NIC seria irrelevante para a decisão clínica, tendo em vista que, desde que não houvesse invasão, os fatores mais importantes na conduta clínica a ser adotada seriam o tamanho e a extensão da lesão. Em 1990, Richart propunha terminologia modificada para neoplasia intra-epitelial cervical (NIC), mudando de três para dois graus:

  • Neoplasia intra-epitelial cervical de baixo grau (anteriormente NIC I).


  • Neoplasia intra-epitelial cervical de alto grau (anteriormente NIC II e NIC III).



  • Alguns patologistas, e principalmente os citopatologistas, apresentaram objeções no termo neoplasia intra-epitelial, especialmente para a de baixo grau, tendo em vista que várias delas regridem e/ou não progridem para lesões mais graves.

    O National Cancer Institute, em Bethesda, Maryland, EUA, realizou, em dezembro de 1988, uma reunião com as principais entidades interessadas no assunto, resultando da mesma o assim chamado Sistema de Bethesda para a emissão de laudos de citologia vaginal /cervical. Tal sistema foi aprimorado em abril de 1991 (Quadro 8-1). De acordo com o mesmo, o citopatologista, ao examinar o conteúdo do(s) esfragaço(s), deve verificar se o mesmo é adequado ou não e, com o estudo morfológico das células, interpretar e correlacionar histomorfologicamente seus achados.

    Pelo Sistema de Bethesda, são observados três elementos:

    1. Se o material é adequado para avaliação.

    2. A categorização do mesmo.

    3. O diagnóstico descritivo.

    Se o material (esfregaço) não for satisfatório, ou somente permitir uma avaliação limitada, deve-se especificar a razão do mesmo. Assim, nos laudos deverá constar satisfatório, ou satisfatório para avaliação, porém limitado por... (especificar a razão), ou então insatisfatório devido a... (especificar a razão).

    Colheita do Material

    Como já foi dito, "a citologia morre em uma colheita mal feita".

    Para que tal fato não ocorra, é necessário que a colheita do material e a feitura do esfregaço sigam determinadas normas.

    Antes de se iniciar a colheita do material, deve-se ter à mão:

  • Lâminas (secas e limpas).


  • Frasco aberto e com fixador (álcool).


  • Espátula de Are ou similar.


  • Escova para colheita endocervical.



  • Esfregaços para avaliação hormonal: colher, de maneira delicada, esfregaços a partir da parede vaginal lateral, a fim de que sejam retiradas células descamadas e não forçadamente raspadas do epitélio de revestimento.

    Caso não seja possível obter material da parede vaginal lateral, pode-se usar material obtido do fórnix vaginal.

    Os esfregaços devem ser feitos em um só sentido, sem se superporem e, fixados imediatamente, para que não ocorra dessecamento dos mesmos.

    A colheita pode ser feita com a espátula de Ayre ou mesmo com cotonete previamente umedecido em soro fisiológico.

    Esfregaços cervicais: para que seja conseguida amostra adequada, é necessário que a cérvice seja exposta através de um espéculo vaginal. Convém lembrar que tal espéculo só deverá ser lubrificado com água.

    Como há interesse em que seja atingida a junção escamocolunar (JEC), é aconselhado que o material seja colhido usando-se a espátula de Ayre (ou similar) e a escova própria para colheita endocervical.

    Colhe-se primeiramente com a espátula, deixando-a de lado: em seguida, introduz-se a escova no canal cervical, girando-a no máximo 180 graus; logo em seguida, faz-se o esfregaço com o material da espátula, como de rotina, e imediatamente, ao lado do esfregaço anterior, sem haver superposição, gira se a escova e coloca-se a lâmina rapidamente no fixador.

    Três pontos são de suma importância:

    1. O esfregaço do material da espátula deve ser feito em um só sentido, sem espessamento.

    2. O esfregaço com a escova deve ser feito girando-a, e não esfregando-a na lâmina, a fim de evitar distorção das células.

    3. A fixação deve ser imediata.

    Obs.: As clientes que irão ter colheitas vaginais ou cervicais devem ser instruídas para que se abstenham de relações sexuais nas 24 horas anteriores ao exame, assim como para não fazerem o uso de duchas ou medicamentos vaginais de 24 a 72 horas antes da colheita do material.

    População Celular dos Esfregaços Cervicovaginais

    Em condições de normalidade, as mucosas vaginal e cervical são revestidas por epitélio escamoso estratificado (vagina e ectocérvice) e colunar simples (endocérvice).

    As células que se descamam do epitélio escamoso estratificado são de três tipos principais:

    1. Células superficiais: descamam-se, na maioria das vezes, isoladamente, apresentam núcleo picnótico e citoplasma eosinofílico.

    2. Células intermediárias: descamam-se geralmente aglomeradas, apresentam núcleos vesiculosos, tanto alongados quanto arredondados, e citoplasma basófilo. As células naviculares, vistas em grande número na gravidez, são células intermediárias com grande conteúdo de glicogênio citoplasmático, que desloca os núcleos para a periferia.

    3. Células parabasais: descamam-se usualmente isoladas, são arredondadas, apresentam núcleos volumosos e esféricos, além de citoplasma basófilo.

    4. Células endocervicais: são do tipo colunar (cilíndrico) que, quando vistas lateralmente têm típico aspecto cilíndrico, com núcleo basal. Quando vistas por um dos pólos, apical ou basal, têm aspecto de "favo de mel". Seus núcleos são esféricos e localizam-se na porção basal. Algumas apresentam cílios no pólo apical.

    5. Células endometriais: nos esfregaços cervicovaginais, e em situações tanto de normalidade ou não, podem ser encontradas e são de tamanho pequeno, descamam-se isoladas ou aglutinadas e apresentam núcleos esféricos, com cromatina finamente granulosa, nucléolo pequeno e citoplasma basófilo.

    Nos esfregaços cervicovaginais, além das células epiteliais, são encontradas outras células como:

    Histiócito - também denominado macrófago, tem núcleo reniforme (por vezes multinucleado), citoplasma basófilo, não raro vacuolado e contendo material fagocitado. Quando multinucleado é denominado célula gigante e é encontrado nos esfregaços atróficos da menopausa, assim como em processos inflamatórios e de reparo.

    Leucócitos - nos esfregaços cervicovaginais, são encontrados principalmente neutrófilos (que predominam) e linfócitos. Os eosinófilos e os plasmócitos são vistos mais raramente.

    Hemácias - são encontradas tanto em casos de normalidade, quanto em processos patológicos, e podem ter significado clínico.

    Citologia nos Processos Inflamatórios Cervicovaginais

    Os esfregaços cervicovaginais nos processos inflamatórios apresentam exsudato inflamatório chegando às vezes a dificultar, ou mesmo a impedir a observação adequada das células epiteliais.

    Os núcleos das células epiteliais, nos processos inflamatórios, são geralmente irregulares e podem apresentar alterações degenerativas até à cariorrexe e/ou citólise.

    Ao nível do citoplasma das células escamosas, podem surgir vacúolos que, não raro, exibem-se como estreitos perinucleares, vistos com freqüência na tricomoníase e na candidíase.

    É comum verificar-se, nos processo inflamatórios, falsa eosinofilia citoplasmática (pseudo-eosinofilia, células escamosas), assim como é freqüente o encontro de células metaplásicas.

    As células epiteliais colunares da endocérvice apresentam núcleos hipertróficos, nucléolos não evidentes e citoplasma vacuolado.

    Na fase de regeneração dos processos inflamatórios, são freqüentes as células escamosas metaplásicas que podem apresentar figuras de mitose.

    Citologia Cervicovaginal nas Infecções Bacterianas

    Os esfregaços cervicovaginais nas infecções bacterianas mostram colônias bacterianas acompanhadas de reação inflamatória.

    Nas colorações pelo método de Papanicolaou, nem sempre é possível reconhecer o microrganismo agressor, o que deverá ser obtido através de técnicas microbiológicas.

    Na tricomoníase, a identificação do protozoário é geralmente fácil, a flora é freqüentemente do tipo de Doederlein e há grande número de neutrófilos. As células escamosas apresentam falsa eosinofilia, além de estreitos halos perinucleares. Não é raro o encontro de microrganismos anaeróbios longos, filamentosos e não-ramificados, do tipo Leptothrix, associados à infecção por Trichomonas vaginalis.

    Os esfregaços na vaginose bacteriana ocasionada pela Gardnerella vaginalis caracterizam-se pela rica flora bacteriana, com ausência de reação inflamatória e presença das chamadas "células-chave" (clue cells), que nada mais são do que células escamosas com grande número de bactérias aderidas a, sua superfície.

    Nas infecções por cocos, tanto gram-positivos quanto negativos, os esfregaços apresentam aglomerados bacterianos e densa reação inflamatória inespecífica. Somente os métodos bacteriológicos poderão identificar os germes.

    Nas infecções por Chlamydia trachomatis, observa-se em células escamosas (geralmente metaplásicas), e em células colunares, vacúolo de contorno nítido e conteúdo eosinófilo. Em virtude de confusão entre as lesões provocadas por Chlamydia trachomatis com outras estruturas vacuolares que apresentam inclusões, um diagnóstico de certeza exige, dentre outros, dosagem ELISA ou detecção de antígenos; por imunofluorescência.

    Em casos de infecção por Actinomyces, os esfregaços mostram densos aglomerados de filamentos, corados em azul, além de numerosos neutrófilos e histiócitos, o que usualmente é visto em portadoras de DIU por período prolongado.

    Nas infecções por micoses, tais como Candida albicans e blastomicose, o aspecto morfológico dos fungos permite o seu reconhecimento, sendo algumas vezes necessária cultura, para melhor elucidação.

    Na esquistossomose, no nosso meio mansônica, e em casos de Enterobius vermicularis, o encontro dos respectivos ovos permite o diagnóstico, posto que os esfregaços nada apresentam em si de particular, a não ser, por vezes, eosinofilia.

    Nas infecções virais, os esfregaços; apresentam, tanto nas células escamosas quanto nas colunares, alterações diversas.

  • Papilomavírus humano - as modificações ocasionadas pelo HPV são usualmente encontradas nos esfregaços cervicovaginais. Estes apresentam células paraceratóticas isoladas, ou grupadas, escamas anucleadas, e alterações coilocitóticas, tanto em células superficiais quanto em intermediárias parabasais. Algumas células apresentam núcleos hipertróficos com cromatina grosseira e por vezes cariorrexe.



  • Na espécie humana, já foram. identificados cerca de 70 tipos de HPV. Dois grupos de HPV infectam. a área genital. Os tipos 6, 11, 42 e 54 são vistos mais no condiloma acuminado e em algumas lesões planas na vulva, vagina e cérvice. Os tipos 16, 18, 33 e outros mais raros (31, 35, 39, 45, 51, 52, 56 e 58) são encontrados no carcinoma invasivo e, seus precursores, nas mesmas localizações. O grupo 16/18 está associado com mais de 95% de lesões malignas de células escamosas, enquanto o tipo 18 está também associado ao adenocarcinoma do colo uterino.

  • Citomegalovírus - as células infectadas são, na maioria das vezes, as endocervicais, que apresentam-se volumosas, com núcleos hipertróficos contendo grandes inclusões, geralmente basófilas, circundadas por halo claro e membrana nuclear espessada em virtude da cromatina, que se desloca para colocar-se junto à mesma, dando à célula aspecto de "olho de coruja".


  • Herpes genital dos dois tipos de herpes simples (HSV), o do tipo 2 é o mais freqüentemente responsável por lesões na genitália. Inicialmente, o material cromatínico celular torna-se grosseiro e aglutinado, sendo que inclusões intranucleares surgem posteriormente. Com o progredir da infecção, o núcleo adquire aspecto de "vidro esmerilhado" (vidro fosco), com marginação da cromatina. As células comprometidas formam sincícios e células multinucleadas, pela coalescência de células isoladas.



  • Citologia das Displasias, Carcinoma In Situ e Carcinoma Invasivo

    Displasia Leve (NIC I)


    Nos casos de displasia leve, os esfregaços apresentam células escamosas superficiais e intermediárias, com núcleos exibindo moderado aumento de volume, nos quais verifica-se cromatina granulosa ou reticular.

    Há discreta variação da relação nucleocitoplasmática, e não se verifica espessamento ou irregularidade da membrana nuclear, sendo variada a hipercromasia nuclear.

    Nucléolos não são vistos.

    Os coilócitos, vistos na infecção pelo HPV, são formas especiais de células displásicas, que, além de alterações nucleares, tais como hipercromasia, irregularidade de contorno e bi ou multinucleares, apresentam grande halo perinuclear, com contorno bem definido, como que por condensação citoplasmática.

    Displasia Moderada (NIC II)

    As células escamosas da displasia moderada tendem a ser esféricas ou ovóides e, mais raramente, alongadas.

    Os núcleos apresentam-se hipertróficos, com contorno irregular e moderada hipercromasia. As células, quando grupadas, podem assemelhar-se a células metaplásicas.

    Há moderada alteração da relação nucleocitoplasmática, e os nucléolos não são visíveis.

    Displasia Acentuada (NIC III)

    As células escamosas da displasia acentuada apresentam-se arredondadas ou ovaladas, com núcleos hipertróficos, hipercromáticos e com irregularidades no contorno,

    Os nucléolos não são visíveis e há grande alteração da relação nucleocitoplasmática.

    Carcinoma Escamocelular In Situ

    Os esfregaços, em casos de carcinoma escamocelular in situ, apresentam células escamosas semelhantes às observadas na displasia acentuada, além do aparecimento de células únicas, arredondadas, com citoplasma muito escasso (daí por vezes a denominação núcleos nus).

    A cromatina nuclear é grumosa e uniformemente distribuída.

    Carcinoma Escamocelular Invasivo

    Os esfregaços vão apresentar células escamosas com tendência à orangeofilia citoplasmática, com grande variação de formas, como fusiformes e aberrantes.

    Os núcleos são hipercromáticos, com nucléolos, algumas vezes visíveis.

    Figuras de "canibalismo" celular e formação de pérolas córneas podem ser verificadas principalmente no carcinoma escamocelular bem diferenciado.

    Detritos celulares, hemácias e grande número de neutrófilos geralmente estão presentes nos carcinomas invasivos.

    A diferenciação citológica entre carcinoma escamocelular in situ, microinvasivo e mesmo invasivo pode ser às vezes impossível no exame de esfregaços.

    Adenocarcinoma Cervical

    Citologicamente, as células são solitárias ou agrupadas e a disposição de seus núcleos pode apresentar-se formando pseudo-rosetas ou paliçada.

    As células são grandes, têm limites citoplasmáticos não muito distintos e podem produzir muco.

    Apresentam núcleos geralmente ovais, com membrana nuclear distinta.

    A cromatina nuclear varia de finamente granular a levemente grumosa, ocasionando hipercromasia moderada.

    Praticamente todos os núcleos apresentam nucléolos (micro ou macro), sendo que em 75% dos casos os nucléolos são múltiplos.

    Adenocarcinoma Endometrial

    As células do adenocarcinoma endometrial predominantemente redondas ou ovais, e quando descamadas raramente apresentam configuração colunar. O citoplasma é cianófilo, mal definido e finamente vacuolado.

    O núcleo é esférico ou oval e geralmente excêntrico, sendo a cromatina nuclear grosseira.

    Avaliação da Condição Hormonal do Trato Genital Feminino pela Citologia Esfoliativa

    Provavelmente foi Pouchet, em 1847, o primeiro a descrever as modificações do epitélio vaginal que ocorrem durante o ciclo ovariano normal.

    Enquanto não foram estabelecidas normas para colheita do material, modo de feitura dos esfregaços e métodos de coloração adequados, o emprego da citologia esfoliativa para avaliação hormonal não se tornou amplamente utilizado.

    Coube a Papanicolaou e seus associados o mérito do reconhecimento da citologia esfoliativa, pois seus trabalhos vieram demonstrar o emprego do método não só em oncologia, como em endocrinologia.

    É importante mencionar que a avaliação hormonal da mulher, por meio da citologia esfoliativa, só pode ser feita a partir de esfregaços vaginais obtidos da parede vaginal lateral e, caso isto não seja possível, do fórnix vaginal.

    Esfregaços ecto ou endocervicais não se prestam à avaliação hormonal, pois nesses locais condições como metaplasia e cervicites impedem uma avaliação adequada.

    Os esfregaços devem conter células descamadas, e não forçadamente raspadas, do epitélio de revestimento.

    Os esfregaços devem ser feitos sem superposição e Imediatamente, ainda úmidos, colocados na solução fixadora (álcool 95) por pelo menos 15 minutos, quando se empregam as colorações de Papanicolaou ou similares.

    Existem técnicas, por microscopia de contraste, em que se usa material a fresco: entretanto, tais técnicas são pouco utilizadas.

    Alguns autores empregam o urocitograma para avaliação hormonal, quando da impossibilidade do emprego do material de origem vaginal. Na América Latina, o argentino Lencioni notabilizou-se por suas publicações sobre o emprego do urocitograma. No nosso meio, a técnica é pouco empregada e consiste na avaliação de células encontradas no sedimento urinário.

    A avaliação hormonal a partir de esfregaços vaginais baseia-se no estudo dos três tipos de células encontradas (superficiais, intermediárias e parabasais), não só na porcentagem das mesmas, mas também na maneira como estão dispostas.

    Índices Usados na Avaliação Hormonal

    Diversos índices são empregados para avaliação hormonal, tais como:

    1. Índice cariopicnótico: representando a proporção de células com núcleos picnóticos entre todas as células, não se levando em conta as afinidades tintoriais citoplasmáticas. Seu valor máximo é verificado no período ovulatório e varia de paciente para paciente.

    2. Índice eosinofílico: representando a proporção de células eosinofílicas maduras em relação às células cianofílicas maduras, independentes do tamanho nuclear.

    3. Índice de dobra celular: também chamado de índice de células plicaturadas, representando a proporção entre células maduras com dobras marginais em relação às células maduras estendidas (sem dobras marginais).

    4. Índice de maturação: representando a proporção entre células parabasais, intermediárias e superficiais presentes. Também conhecido como índice de Frost.

    Valor dos índices

    Quando ainda não se dispunha de métodos precisos para a dosagem de hormônios no sangue, os índices citológicos eram mais empregados do que hoje, posto que existe grande variação quando se comparam os índices de uma paciente com outra, e a variação também pode ser vista em ciclos diferentes de uma mesma paciente.

    Atualmente, o emprego dos índices é visto principalmente nos casos de puberdade precoce, avaliação de função ovariana em pacientes histerectomizadas, diagnóstico de persistência folicular, avaliação da terapia de reposição hormonal, diagnóstico de tumor produtor de hormônio em crianças e mulheres na pós-menopausa etc.

    Flora Bacteriana Normal

    A flora bacteriana vaginal normal é constituída praticamente pelos bacilos de Doederlein (lactobacilos, que são bastonetes gram-positivos.

    Os bacilos de Doederlein são responsáveis pela fermentação do glicogênio intracelular em ácido láctico, ocasionando assim o pH ácido do meio vaginal.

    A fermentação do glicogênio celular provoca a citólise das células intermediárias, ricas em glicogênio, este comum na gestação, podendo acompanhar-se de leucorréia.

    Citologia Hormonal

    Os aspectos dos esfregaços vaginais modificam-se em diversos estados hormonais, tais como: pré-puberdade e puberdade. Se bem que, até o 152 dia de vida, os esfregaços vaginais são o reflexo da atividade hormonal materna, daí em diante vão assumindo aspecto atrófico até próximo à puberdade, quando gradativamente vão apresentando maturação.

    Ciclo Menstrual

    O aspecto do esfregaço vaginal varia nas fases menstrual (primeiro ao quinto dia), estrogênica (sexto ao 142 dia), ovulatória (142 ao 152 dia) e lútea ou progesterônica (162 ao 182 dia).

  • Fase menstrual - esfregaços apresentando grande número de hemácias e neutrófilos com predomínio de células intermediárias, presença de histiócitos, células endometriais e detritos celulares.


  • Fase estrogênica - verifica-se aumento progressivo das células superficiais eosinófilos cariopicnóticas, e diminuição do numero de neutrófilos e de histiócitos e menor aglutinação celular. Células endometriais podem ser encontradas até o 120 dia.


  • Fase ovulatória - há predomínio absoluto das células superficiais cariopicnóticas e eosinofílicas, que se apresentam isoladas. Podem ser encontradas raras hemácias e constata-se grande diminuição dos neutrófilos.


  • Fase lútea - verifica-se diminuição gradativa das células superficiais e aumento progressivo das células intermediárias, que se apresentam aglutinadas. Verificam-se: aumento do número de neutrófilos, citólise e presença de detritos celulares.



  • Menopausa e Pós-Menopausa

    Os esfregaços mostram aumento progressivo de células parabasais, assim como de neutrófilos, reflexo de uma atrofia da mucosa vaginal.

    Gravidez

    Os esfregaços da gravidez mostram acentuação gradativa do estímulo progestacional. As células predominantes são as intermediárias, com grande número de células "naviculares", além aumento da flora lactobacilar e citólise.

    Pós-Parto

    No pós-parto, os esfregaços apresentam um quadro de atrofia (células parabasais intermediárias), além de grande número de neutrófilos e histiócitos. Ocorrendo o aleitamento, o quadro de atrofia persiste; caso contrário, o quadro de atrofia desaparece gradativamente com o retomo da atividade estrogênica.

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