Capítulo 06 - Queimaduras

I. Definição e Fisiopatologia

Anualmente, nos Estados Unidos, mais de dois milhões de pessoas sofrem queimaduras. Destas, 100.000 requerem hospitalização e 12.000 vêm a falecer. A incidência é alta nos extremos etários (muito jovens ou muito idosos), em classes sócio-econômicas inferiores e em áreas rurais onde há aparelhos de aquecimento e lareiras. A gravidade das lesões cutâneas provocadas pelo dano térmico à pele é diretamente proporcional à intensidade e à duração da exposição ao calor. Os tipos de queimaduras podem ser assim sintetizados:

A. Queimadura de primeiro grau

1. Histopatologia

a. Epiderme: perda da adesão intercelular com formação de fenda.

b. Derme: vasodilatação e edema.

2. Quadro clínico: pele eritematosa e edemaciada.

3. Evolução: cura em três a quatro dias, sem cicatriz.

B. Queimadura de segundo grau

1. Histopatologia

a. Epiderme: necrose coagulativa com formação de bolha na junção dermoepidérmica.

b. Derme: vasodilatação e edema acentuados.

2. Quadro clínico: pele eritematosa, presença de bolhas e manutenção da integridade epidérmica.

3. Evolução: em casos não-complicados a reepitelização ocorre em duas a três semanas sem cicatriz.

C. Queimadura de terceiro grau

1 . Histopatologia: necrose da epiderme, derme e tecido em intensidades variáveis.

2. Quadro clínico: lesão ulcerada com tecido necrótico extenso.

3. Evolução: lenta (meses), com cicatriz.

A profundidade da queimadura pode estar relacionada à causa. Acidentes com líquidos quentes geralmente provocam queimaduras de segundo grau, enquanto contato com chamas, metais aquecidos ou corrente elétrica quase sempre causam lesões de terceiro grau. A queimadura química depende do agente, e as lesões podem progredir durante vários dias. Na prática torna-se geralmente difícil determinar a profundidade da lesão durante as duas primeiras semanas de evolução.

II. Sintomatologia

As queimaduras de primeiro e segundo graus são extremamente dolorosas. Lesões mais profundas, com destruição de nervos, tornam os tecidos insensíveis à dor.

III. Descrição das Lesões

A. As queimaduras de primeiro grau são eritematoedematosas e curam-se rapidamente. A descamação e a hiperpigmentação pós-inflamatória são discretas.

B. Há formação de bolhas rias queimaduras de segundo grau e pode-se observar circulação capilar contínua.

C. Nas queimaduras mais profundas encontram-se vasos sangüíneos coagulados, a pele apresenta-se seca e cor de mogno. Quando a pele lesada assunte cor marmórea, se torna difícil avaliar a profundidade da lesão. Tais lesões podem ser queimaduras de terceiro grau, mas, por vezes, curam-se espontaneamente. Nesses casos, a denominação mais correta seria lesões profundas de segundo grau.

IV. Avaliação

Queimaduras de segundo grau que acometem menos de 15% da superfície corporal e poupam face, mãos, pés e períneo, e as de terceiro grau que acometem menos de 2% da superfície corporal são classificados como pequenas queimaduras. Esses casos quase sempre podem ser tratados em nível de ambulatório.

V. Tratamento

A fisiopatologia e o tratamento das queimaduras moderadas e graves não serão discutidos aqui. Há necessidade de cuidados especializados intensivos em hospital para o correto tratamento das lesões e reposição hidroeletrolítica.

A. Tratamento imediato. Aplicar toalhas embebidas em água gelada ou fria, ou mesmo gelo, ou colocar a área queimada em imersão em água estática (não-corrente) de torneira (22 a 25ºC). Essa terapia é eficaz porque a pele queimada retém calor suficiente para propagar a coagulação aos tecidos circunjacentes. O tratamento deve ser iniciado o mais breve possível (na primeira hora após a queimadura), após a limpeza da área com água e sabão. As aplicações aliviam a dor, reduzem o edema, à hiperemia reativa e, possivelmente, a extensão da lesão. A área queimada deve ser mantida na água até que a dor desapareça, o que pode levar ate 45 minutos, Áreas não-acometidas devem ser envolvidas com cobertores para evitar hipotermia sistêmica.

B. Tratamento pós-emergência

1. As queimaduras muito superficiais não exigem curativos ou medicações, embora o uso de um emoliente, como a vaselina, possa ter efeito calmante, As feridas devem ser cuidadosamente lavadas com água e sabão suave. Os pacientes devem receber imunização contra tétano e, se necessário, analgésicos (ver Prancha 1 para recomendações sobre a profilaxia do tétano). Os anestésicos tópicos à base de benzocaína com concentração superior a 5% podem aliviar o desconforto imediato (Ver cap. 5), mas aumentam o risco de dermatite de contato alérgica. Não há qualquer estudo clínico que demonstre a eficácia da aplicação tópica de antibióticos às queimaduras superficiais. Seu uso é contra- indicado. Os corticosteróides tópicos inibem a inflamação e também podem diminuir a dor.

2. As queimaduras de segundo grau devem ser cuidadosamente limpas e tratadas com curativo. Na maioria dos casos é aconselhável remover as bolhas e tecidos inviáveis. As queimaduras tratadas em ambulatório apresentam melhoras mais significativas quando são aplicados curativos. Estes devem ocluir a ferida, proteger a área, ser facilmente removíveis e confortáveis. Nas lesões exsudativas, a aplicação de uma pomada solúvel em água ou de gaze com pomada nas vizinhanças da lesão impede a aderência do curativo. Materiais absorventes, tais como chumaços de algodão, devem ser colocados sobre a camada inicial de gaze e o curativo deve ser coberto com uma bandagem elástica com compressão uniforme. Os curativos devem ser substituídos a cada cinco dias a não ser que haja exsudação excessiva, o que exige trocas mais freqüentes. Quando os curativos aderem à pele, devem ser umedecidos, ou a parte afetada embebida em água morna antes de retirá-los. Se há suspeita de infecções, deve-se aplicar antibióticos tópicos como providona-iodo, sulfadiazina de prata1 ou mafenide.

3. As queimaduras químicas exigem irrigação imediata e prolongada com água (duas a quatro horas, ou mais), o que pode reduzir a profundidade da lesão. As queimaduras por ácidos não devem ser lavadas com substâncias alcalinas, e vice-versa. Isto provoca reação exotérmica com maiores danos aos tecidos. Textos especializados sobre a toxicidade de produtos industriais devem ser consultados para terapêutica específica.

Notas

1
Produto não disponível no Brasil (N. do T.)

Referências

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